Por que quê a gente é assim? – Cazuza
Olho nos Olhos – Chico Buarque
Resposta ao Tempo – Nana Caymmi
Ainda é Cedo – Legião Urbana
ps: as músicas não precisam ser escutados, achei necessário pois as escutava enquanto escrevia, na ordem em que foram colocadas. Sei lá, as palavras iam saindo tal como as letras das músicas iam esgotando meus ouvidos...
Ficar ao lado dela era o mesmo que ficar ao lado do nada, do vazio. Ela nunca falava nada, estava sempre tão longe, como se não quisesse estar ali. Queria lhe falar tanto. De como me arrependo de tudo que passei, que passou, que passamos. Mas não consigo, mais uma vez me vejo preso num infinito de palavras dentro de mim mesmo. Como dizer para ela que não quis, que não queria machucá-la, que a amo tanto tanto dentro de mim, que me machucam esses espaços, esses silêncios, essas palavras quebradas? Tento dizer, mas seus olhos, tão bucólicos, me cortam antes mesmo que possa tentar persuadi-la de que errei, errou, erramos. Atemo-nos a tantos detalhes que no final sempre são ele que sobressaem mais do que todo o resto, certos ou errados. Me vejo revendo os detalhes dos acontecimentos, de tudo, de como fui, de como foi, de como fomos, contudo, de fato, inexplicavelmente confusões foram feitas em relação à palavras à sentimentos à desejos. Sobressai sozinho desse sentimento que sentimos por quase um ano e via em seus olhos o que nunca te quis fazer sentir.
- Eu não quero te machucar.
- Então não o faça.
Queria começar novamente. Mas é aí que erramos. Queremos tudo de novo e se não queremos, queremos vivê-los novamente para mudá-los. Nós erramos nas coisas mais banais... E são nelas que nos pegamos pensamos por horas-à-fio até acharmos uma ‘solução’, que por mais que possa mudar qualquer palavra já dita ou ações mal interpretadas, já é tarde. Não dá para mudar o que se foi feito, não dá para mudar o que se foi dito. É tão difícil, tão difícil esquecer o que aconteceu. Como somos rancorosos. E é isso que penso que ela pensa de mim. Suponho que ela guarda esse rancor que eu não queria gerar. Ela diz: não compreendo como chegamos a esse ponto. Era amor que sentíamos e agora nada mais é do que o vazio de um sentimento que foi embora, você me machucou tanto e eu só queria estar lá, eu só queria você. Não havia palavras para me defender, porque não discordava dela, mas nem ao menos concordava, não acreditava dentro de mim que as coisas que estava fazendo, que as coisas que estavam acontecendo haviam sido tão ruins assim, mas não me arrependi. Ela significava tanto para mim e agora eu não significava mais nada para ela. Os dias os meses os anos não voltam, os erros não voltam, nada volta. Estamos presos em nós mesmos, no tempo e espaço, em nossas cabeças. Estamos presos em nossos sentimentos nossas mágoas.
- Eu ainda te amo. Não pense o contrário. Mas quando penso em você, espaços brancos surgem em mim, eu não me sinto feliz. Entende que eu não consigo mais me imaginar ao seu lado. Eu não consigo mais nos ver como antes. Nada pode ser como antes, as coisas mudam, as situações mudam, os sentimentos mudam. Quando tem traição, me disseram que é porque damos espaço para que ela aconteça. Eu errei. Você errou. Nós erramos. Mas agora já foi e não volta mais. Eu só queria que você soubesse que não foi somente sua culpa, queria que você entendesse que eu estou tentando ser feliz novamente, com outra pessoa, e eu queria que você me deixasse ser feliz e não ficasse me arrastando com você para dentre desse buraco que está se enfiando.
Eu queria que ela fosse feliz. Mas eu queria que ela fosse feliz ao meu lado, não ao lado dele. Eu só queria ter àquele sentimento novamente para mim.
- Eu só quero que você seja feliz, acredite que não estou tentando e nem quero te trazer comigo para esse meu buraco, mas eu ainda te amo tanto que me machucam esses espaços, me machuca te ver falando que gosta dele quando sei que não gosta.
- É o que você quer, não o que é de verdade.
Era o que eu queria. Eu não queria que ela gostasse dele. Eu não queria que ela me esquecesse. Às vezes me pergunto se eu a amo ou se fico arrastando ela para perto de mim, pelo fato de que: eu adoro a conquista. A conquista é a melhor parte do jogo. É a melhor parte de tudo. É o que nos faz querer alguém tanto quanto querer a nós mesmos. Depois, isso tudo, vira somente nada. Tudo vira em nada, os sentimentos se desfazem, as palavras parecem sem sentido, os momentos parecem irreais, tais qual conto de fadas. Se for verdade que somos nossas ações, então é verdade que eu machuco, machuquei e provavelmente machucarei toda e qualquer possível relação que algum dia possa ter um começo inevitável. Talvez eu esteja fadado a viver em relações que não dão certo. Talvez esteja fadado a viver o conto de fadas do começo somente para chegar ao terrível fim. A verdade não é que eu os destrua, a verdade é que eles vão se desgastando ao longo do tempo, sem dar chance de virar algo poderia vir a ser. Quem sabe eu não dê chance a eles pelo simples fato de não suportar o ‘relacionamento’ com ninguém. Depois me pego pensando no ‘por quê?’ de as pessoas sempre irem embora, não importa como ou porque, mas elas, eventualmente, sempre desistem de mim. Quem sabe eu também esteja desistindo de mim. Quem sabe eu esteja desistindo de me salvar. Talvez eu devesse desistir de mim também...
- Eu tenho tanto medo de me entregar, e quando fiz isso com você me senti usada. Como todas as outras vezes que isso aconteceu. Quando consegui criar confiança, você me traiu. A verdade é que você tem medo.
- Você também tem medo.
- Não nego. Tenho medo e pela primeira vez não tive mais. Talvez tenha sido isso que tenha te estragado e feito ir à outra direção. A verdade é que nunca vamos saber. Não sei nem se quero saber. O que me dá um leve alívio é saber que finalmente acabou. A tortura desse último ano acabou. Nos acabamos. Eu estou esgotada. De tudo isso. Eu cansei. Esse é o fim.
“Quer ouvir música? meus dedos avançam até o rádio. Um gesto e três palavras para encher o silêncio. Que de tão repleto não cabe em si mesmo. Eu disse: a lua está tão bonita que dói por dentro. Ele não entendeu. É tudo tão bonito que me dói e me pesa. Fico pensando que nunca mais se repetir, é só uma vez, a única, e vai me magoar para sempre. Não sei, não quero pensar. Neste espaço branco de madrugada e lua cheia, preciso falar, e mais do que falar, preciso dizer. Mas as palavras não dizem tudo, não dizem nada. O momento me esmaga por dentro. O espanto esbarra em paredes pedindo exteriorização (...). Por que feri? Por que feriu? Por que estamos dizendo coisas que não sentimos nem queremos?” Meio Silêncio – c.f.a.
ps²: não sei exatamente quando foi escrito, mas acabei de terminar. sem data específica...