julho 20, 2010

"Yeah, it's like... hazy days, you know?" cassie

São tantos remédios que eu já nem sei se fazem efeito. Sentindo nada, sentindo a angústia, a dor, o medo, o vazio que dura e dura e não acaba nunca, faz com que pergunte por quanto tempo mais vai restar, por quanto tempo mais consegue durar tudo isso. Por quanto tempo mais eu consigo durar a tudo isso. Parece agravar a reflexão que aparece no espelho, e se olhar para ele diz quem sou eu, explica-se por que então aparecem reflexos em vazio, espaços em branco que não conseguiram ser preenchidos. Apertando então para que nada não volte a não existir, como faziam antes, voltando de trás para frente em memórias cheias de momentos vazios. A dor não sentida passando a ser desejada para que pudesse sentir-se normal novamente, para que pudesse quebrar a barreira entre o não-existente e o existente. O que fazer, então, se não puxar, apertar, queimar, cortar as ataduras que prendem ao não-real? Ao engolir os remédios, matando as ansiedades, as angústias, tentando controlar os medos do que (não)existe. Engolindo remédios (des)necessários para poder conseguir sobreviver mais uma manhã ou quem sabe, mais uma noite sem nexo, sem vida, como compreender o nunca antes visitado, como entender o que me é explicado se não consigo nem compreender o que está acontecendo? Como então...


Chopin Nocturne Op.9 No.2

"(...) não iriam entender que vezenquando a gente fica triste sem motivo, ou pior ainda, sem saber sequer se está mesmo triste." - caio

julho 07, 2010

para escutar ao som de: wish you were here - pink floyd.

-> antes um comentário breve, juro. estava quase dormindo quando veio esse texto em minha cabeça, saiu assim fluindo nos pensamentos de um jeito que me agradou muito. claro que não foi terminado, já que as palavras secam eventualmente. mas eu tentei terminar da (pior) melhor maneira possível. esse foi o resultado.



Olhou a ponta do cigarro acesa, presa entre os dedos. A fumaça subindo devagar, tentando acompanha-la com os olhos, deu-se então com o rosto dele. Estava esquivo. Procurava contato entre os olhos, mas não encontrava. Tragou e logo depois soltou a fumaça levemente pelo nariz. Estava coberta de um sentimento que não sabia identificar qual era. Seria amor ou ódio embutido pela face? Queria dizer, qualquer coisa que quebrasse o silêncio. As palavras escalando a garganta e escorregando pela ponta da língua até que se tornasse viva.

- De todas as pessoas, você foi a que mais me decepcionou. – Algumas palavras jogadas no quarto e estava pronto. O fim. As lágrimas escorrendo pelo rosto, cobrindo os poros e se arrastando até chegar ao fim da face. Encarou-o de forma definitiva, talvez a fim de provocar um confronto ou quem sabe procurar uma resposta, mas nada. Continuava esquivo, quieto. Fazendo do silêncio a melhor resposta que pudesse ter em mente. Não havia mais nada então. Eis que, agora, tudo estava morto, se é que algum dia foi-se vivo. Tudo estava perdido. Não compreendia e talvez não quisesse compreender como chegaram a tal ponto. Depois das primeiras palavras ditas não conseguia mais conter as memórias caindo pelo chão, como lixo, como coisa suja. Foi então que vieram novamente, sem conseguir conter-se deixou que as palavras escorregassem mais uma vez.

- Você tomou tudo de mim. Tudo. E agora eu estou vazia. Você não se conteve e no fim eu acabei quebrada. Sai despedaçada disso tudo. Eu não tenho mais nada. - Sentiu o salgado das lágrimas corroendo sua boca aos poucos, tragou o cigarro mais uma vez na esperança de fazer sumir o que tivera acontecido nesses últimos dias. Ele então se levantou de sua cadeira pegou seu casaco acendeu um cigarro, como se fosse mais um dia normal e saiu pela porta sem olhar para trás. Foi o fim. Havia chego e eu não tinha percebido. Ele saiu de repente sem nada a dizer. A falta das palavras foi o que mais me doeu naquele momento. Ficaria pensando nisso por horas a fim. Deitei-me na cama e adormeci chorando. Só assim então para conseguir tirar todas as lembranças ruins de dentro e tentar guardar o que havia ficado de bom. Acordei com cheiro de coisa morta, mal percebi que era eu que exalava esse cheiro. Acendi um cigarro para poder disfarçar o que não conseguia mais, disfarçar de mim mesma que estava morta por dentro. Levantei da cama com o cigarro preso na boca, engolindo cada tragada como se fosse à última, sentindo cada parte da fumaça entranhar-se por cada pedaço morto do corpo. Sentei-me na poltrona de sala olhando mais uma vez a fumaça bater contra o sol criando formas que não conseguia decifrar o que era, mas que a mim pareciam tão bonitas tão bonitas tão bonitas essas que me doíam como todas as outras coisas. Queria tanto falar, queria tanto gritar, mas não o faria, porque se não o fizesse era como se não existisse realmente. Jogar com a mente, tentando enganá-la para que os cheiros os sóis os abraços não fossem invenções para tentar suportar aquilo que não tinha mais. Só não sabia o que não tinha. Não podia perder no próprio jogo, pois perder significaria admitir a derrota e não estava preparada para isso. O silêncio tomou conta de mim por certo tempo, sentada, segurando um cigarro na mão e o vazio na outra esperando voltar o que aquilo que havia escapado. Então me deixei prender nos sóis nos cheiros nos abraços e nas memórias, tentando segurá-las pelos dedos escorregadios escapando pelos vãos sem nem ao menos conseguir segurá-los. Iam sendo perdidos sem nem ao menos conseguir prendê-los. Tentar prender aquilo que não conseguia mais. Ficaria por horas-e-horas encarando a porta, acendendo cigarros e mais cigarros a espera que você voltasse, entrando pela porta e dizendo que foi tudo um erro. Mas não iria, não faria. Errei. Erramos coração. Agora eu fico aqui com os cheiros os sóis os abraços as memórias escorrendo pelos dedos, deixando morrer tudo, esgotando, correndo, matando por fim. Não compreendo como chegar ao ponto de matar e se deixar morrer.

Os vãos dos espaços escorrendo, saindo de mim, por cada poro. Tentaria lutar, para poder manter pelo menos uma memória um sol um abraço um cheiro. Tentaria lutar pelas coisas não perdidas nem gastas com o tempo. Conosco. Tudo feito para não ter mais sentido no final. Não compreendi e não compreenderia que a perda dos sóis dos abraços das memórias dos cheiros era pedido pelo organismo, porque sofrer cada vez mais por essas já não fazia mais sentido, não cabia mais nos espaços novos se formando, necessitando respirar ar novo. Mas não queria. Não queria perder nada daquilo. Queria segurá-los até o último suspiro. Contrariando as ordens do organismo guardava mais e mais do que podia. Quem sabe, talvez, fosse mais forte do que eu-sentimentalóide-humano-fraco-eu. Acendeu mais um cigarro, um dos últimos, olhava para o cinzeiro transbordando e observava o anoitecer chegando, tragou devagar, queria saborear o penúltimo cigarro, sentiu a fumaça entrando em seus órgãos, tomando conta de seu corpo para que logo depois saísse pelos poros. Junto com os cheiros os sóis os abraços as memórias, sentido morrer aos poucos. Continuo ali e continuaria até que pudesse tornar realidade. Esperando que os cheiros os sóis os abraços voltassem rastejando para dentro. Esperando. Esperaria até o fim.



"Vem para que eu possa recuperar sorrisos, pintar teu olho escuro com kol, salpicar tua cara com purpurina dourada, rezar, gritar, cantar, fazer qualquer coisa, desde que você venha, para que meu coração não permaneça esse poço frio sem lua refletida." c.f.a.