Ansiava pelo dia em que poderia respirar e sentir-se livre! Sim, dizia ele, aquele homem que há muito esperava sentado e fechado, e nada mais falava! Enquanto ele falava, eu trocava olhares com ela e sorriamos como quem guardasse segredo. Sorriamos do velho que nos contava histórias e nos falava como a vida era ou de como dizia que a liberdade era algo profundo, era certa magia de suster o ar (sim, suster e não reter, como sempre nos corrigia) e, depois, libertá-lo pensando na perfeição da liberdade imperfeita. Uma perfeição quase imperfeita porque simplesmente somos humanos e nada sabemos sobre a vida ou sobre o mundo, dizia ele, talvez por sermos jovens ou quem sabe por parecermos estúpidos. “Nunca argumente dizendo que já aprendeu a viver”, ensinava-nos o velho sábio, culpado por coisas que talvez não houvesse feito, por coisas que almejava por fazer, mas acontecimentos da vida o impediram ou, quem sabe, por falta de coragem de seguir o que lhe estava determinado... Ensinou-nos, também, que a sua imagem da liberdade era como quando uma criança ia pela primeira vez à escola. Eu perguntei o ele o que queria dizer com aquilo enquanto ela me olhava com uma cara de “pare de fazer perguntas, tenho compromissos” e eu respondia a ela com um sorriso e logo me punha a olhar para o velho sábio. Ele me explicava que a primeira vez que uma criança entra na escola pode sentir, inicialmente, medo e receio do que a espera ali do outro lado dos portões, sente também certo desconforto de não conhecer ninguém ou de ficar a deriva do isolamento, no entanto rapidamente se habituaria à idéia e saberia que ali é de certa forma livre, não saberia dizer como ou por que, mas uma liberdade de não ter a obrigação deixada por aqueles que o trouxeram ao mundo. É livre porque se tornou em alguém que depende de si mais que nunca, e não da gente grande, não das pessoas que comandavam sua vida. Então eu pensei que poderia me considerar assim. Que poderia me considerar uma criança que estava chegando à escola. Então eu ria-me, por vezes, e ela fazia cara de apressada olhando o relógio a cada cinco segundos. Não sei por que, mas ele me dava à curiosidade, talvez pela forma como ele tratasse as pessoas. Para ele, a gente ou era grande ou pequena... Não muito pequena, nem muito grande; simplesmente pequena ou grande. O meio termo era algo que resultava da incerteza, da insegurança de poder ou não poder. Do medo. E medo não era coisa de gente grande. Pelo menos não para ele.
Fomos embora depois dessa explicação iluminativa. Tentei convencê-la a ir a um bar comigo, qualquer bar, mas ela disse que tinha coisas que precisava fazer. Como toda noite. Ela nunca me falava o que era apesar de eu já saber. Nos despedimos. Eu com um sorriso na cara, mas com os olhos de quem não queria me separar dela e ela sempre com a mesma cara. Aquela que eu não conseguia decifrar. Então me sentei numa mesa de bar e escutei as sonoridades que por ali passavam e completando àquele silêncio. Olhava para as coisas e as pessoas ao meu redor enquanto me deliciava com o Uísque que tinha em minha mão esquerda e um cigarro quase apagado na mão direita. Olhava para a rua e os carros passavam tão rápidos. Não sei o porquê, mas desejava uma batida de carro, ou um acidente qualquer, alguém atropelando outro alguém, um ônibus passando em cima de algum pedestre, qualquer coisa, só para notar as pessoas correndo desesperadas, curiosas para saber o que se passava o que acontecia e o porquê de estar acontecendo. Porém nada. Nem uma batida. Nem um atropelamento. A vida continuava e os carros, ônibus e pessoas continuavam passando em frente àquele bar de esquina. Senti então um aperto no peito. Um sentimento desconfortável, como de alguém que não tinha ninguém por perto, para conversar ou para desabafar ou só para ficar em silêncio ou para me dizer que tudo ficaria bem que eu não precisaria me preocupar com nada e que me abraçaria e me passaria um sentimento de aconchego. Foi então que me lembrei de você. Lembrei-me que tu sempre foras alguém de coragem. Que quando queria algo sempre conseguia. Pode-se dizer que era o meu oposto. Então bebi mais e acendi outro cigarro, para ver se o tempo passava, para ver se você voltava dizendo “Escuta só. Eu tinha um compromisso, mas resolvi desmarcar, só para ficar ao seu lado.” ou algo como “Um dia desses seus vícios ainda vão te matar.” e me olharia com aquela cara que sempre fazia, soltaria um sorriso e puxaria uma cadeira só para ficarmos em silêncio um ao lado do outro, bebendo e fumando. Acredito que mesmo em silêncio você me compreenda como ninguém. Acho que era esse o motivo de eu sempre estar a sua espera. E as horas foram passando, e os carros assim como as pessoas já nem por aqui cruzavam e aquele som de passos, buzinas e carros que antes iluminavam minhas idéias agora vinha como um silêncio súbito, quase ensurdecedor, quase que agonizante, então fechei os olhos e traguei meu cigarro sentindo a fumaça descer pela minha garganta e um relaxamento tomar conta do meu corpo enquanto o calor do cigarro começava a queimar levemente meus dedos. Tentei não me concentrar no silêncio que me desesperava. Imaginei coisas que meu eu inconsciente nem pensaria que existisse, coisas diabólicas, coisas sem sentido, coisas agradáveis como tardes de sol no parque ao seu lado. Então me senti triste e sozinha, por não ter ninguém ao lado e desejei, por um segundo ou menos, que um carro passasse só para que pudesse me jogar em frente dele. Resistiu. Sacudiu a cabeça e tragou mais uma vez o cigarro. Resistiu à idéia de suicídio. Pois era madrugada, pois daria trabalho levantar-se da cadeira, pois naquele momento já não fazia mais sentido essa idéia. Então voltou a pensar em nada e a cada minuto que passava era mais uma tragada no cigarro e um gole do Uísque, só para sentir mais uma vez o calor descendo pela garganta e chegando ao estômago esquentando tudo por dentro, só para preencher o que você não vinha me oferecer. O seu calor. A única coisa que necessitava.
Queria levantar dali. Queria sair e ir ao seu apartamento e bater na sua porta e te dizer tudo o que sentia e tudo o que me parecia e como você me fazia falta. Como você me instigava curiosidade e que eu te amava. Então sentiria um frio na barriga e um medo, medo de rejeição, medo de você não sentir nada do que eu sinto. Então continuei ali, com meu copo quase vazio, de uísque e com um cigarro quase acabado, em minha mão. Continuei ali a me lamentar e por um momento, pude sentir mais ainda aquela solidão e pensei em chorar, ou gritar, ou qualquer coisa que pudesse me aliviar daquela dor que você me proporcionava. Então levantei e pensei decidido que iria ao seu apartamento e falaria tudo o que viesse a cabeça. Então me sentei novamente, mais decidido ainda, e pensei que você provavelmente estaria com alguém lá. Talvez pelo fato de que você não conseguia passar uma noite sozinha, por ter medo da solidão, por ter medo de ficar carente ou só porque gostava de um corpo estranho em sua cama toda noite. Então me decepcionei novamente. Por não conseguir te falar o que sentia. Por não ser o corpo que te esquentava toda noite. Acabei tomando mais um copo de Uísque e acendendo mais um cigarro. E fiquei sentado ali, esperando o sol nascer para ir ao lugar que chamo de casa, esse era o sinal claro de que precisava me retirar daquele lugar. Então fui embora para minha casa e novamente começavam a passar carros rápidos e desrespeitosos e pessoas, todos com caras confusas de sono, de quem desejasse não fazer nada àquele dia e sim ficar trancado em casa lendo um bom livro tomando um bom conhaque e escutando um boa sinfonia com seu amado. Talvez era isso que eu queria.
nada de novo para postar... continua (?)